Educação previdenciária cresce como nova disciplina

O dinâmico e desafiador processo de aprendizagem do ser humano tem como principal objetivo o devido preparo para a vida. E, segundo alguns estudiosos tem demonstrado, ele já tem o seu início na gestação. Não apenas após o nascimento. Entretanto, a única certeza que ainda temos é de que ele só estará concluído após a morte. Pelo menos na perspectiva do próprio indivíduo.

É evidente que muitas pessoas se preocupam em deixar um “legado”, que possa ultrapassar os limites da sua vida. Pelo menos como um registro da sua “passagem” existencial.

Ao fazermos esta constatação, merece registro a quantidade de novas “disciplinas” que têm surgido ao longo dos últimos anos, e que tratam de conteúdos importantes e diversos. E todos eles têm, como característica comum, o tratamento de temas complementares à educação formal que é ministrada na escola e outras estruturas dedicadas à formação do ser humano.

Servem como exemplos de algumas destas novas disciplinas temas como: educação para o papel de pais; relações conjugais; dinâmica familiar; carreira profissional; empregabilidade; empreendedorismo; auto-desenvolvimento; educação financeira; consumo consciente, sustentabilidade etc..

Mas o que podemos observar, nos dias atuais, é o surgimento de uma nova disciplina, motivada pelos desafios e oportunidades causados pelo aumento da longevidade.

Estou me referindo à Educação Previdenciária, disciplina esta que não envolve somente a responsabilidade e os cuidados relativos às questões de reserva financeira para a aposentadoria ou a vida no futuro. Diz respeito também à importância e necessidade de criar um projeto de vida que contemple esta nova etapa. Necessidade esta que, na sua maioria, decorre do desejo e busca de um envelhecimento mais prolongado, saudável e com qualidade de vida.

Mas vale registrar que, na atual realidade sócio-econômica do Brasil, este olhar mais preventivo no que se refere ao futuro financeiro vem encontrando várias dificuldades decorrentes da queda no número de famílias que conseguem algum tipo de “sobra” na sua renda. O que dificulta criar alguma poupança ou reserva futura.

Pesquisa recente da Fecomercio – RJ mostra que o percentual de famílias com algum excedente na renda mensal, depois de pagas todas as despesas, caiu de 30,2%, em 2013, para 28,65% no início de 2015.

Na mesma comparação, a parcela de consumidores com orçamento equilibrado, sem sobras nem faltas, avançou de 47,5% para 48,5%, enquanto a participação daqueles com rendimentos insuficientes para quitar todos os dispêndios subiu de 20,2% para 21,1%, no mesmo período.

Segundo o gerente de Economia da Fecomércio RJ, Christian Travassos, “o consumidor vê o noticiário econômico e fica preocupado. Ele sente o impacto da inflação, sabe que o governo retirou incentivos fiscais e que algumas regiões do país já estão demitindo. Acrescido dos reajustes de impostos, tarifas públicas, restrições na concessão de crédito ao consumidor e perspectiva de recessão econômica. O que leva muitas famílias a rever sua conduta na relação entre a renda e sua destinação”.

Para o analista financeiro Lima Gonçalves, do Fator, “toda esta expectativa se fundamenta na piora do mercado de trabalho, com queda absoluta no emprego e alta insegurança da população economicamente ativa. Dois movimentos combinados que levam à desaceleração nominal dos salários e à queda da renda”.

Diante de todo este panorama o que se percebe é que as pessoas começam a utilizar reservas financeiras para a cobertura das suas dívidas atuais.

Portanto, cada vez mais sobra menos para uma reserva futura.

Paralelamente, aumenta o número de dependentes dos pais, ampliado pelos filhos que chegam à idade adulta sem terem ainda entrado no mercado de trabalho.

Ou seja, sobrecarrega a renda atual dos idosos, o que agrava sua perspectiva de autossuficiência financeira.

Diante deste quadro, vale registrar a importância de políticas públicas que estejam direcionadas para o futuro da população brasileira que está envelhecendo, mas não devemos descartar a responsabilidade de cada um em tomar os cuidados e medidas preventivas no encaminhamento de um envelhecimento digno.

Isto envolve a criação de reservas financeiras, capacidade de se reinventar para manter a autoestima, novos projetos e, acima de tudo, criar filhos mais autônomos que se preparem para enfrentar a vida real.

Ou seja, devemos realizar esforços para evitar idosos dependentes de filhos, ou ainda filhos dependentes dos seus pais. Isto tanto na perspectiva financeira como também a emocional.

Eis aí um desafio que exige uma postura preventiva. Ele já está presente em nossa realidade.

Fonte: Administradores – Renato Bernhoeft